Rayana

Cuca Roseta e Daniel Casares

A raia é um território de fronteira. Mas não da fronteira como linha de separação; antes da fronteira como território permeável, aberto aos fluxos vindos do outro lado, lugar de pertença a dois mundos. É um lugar de passagem e de comunicação, um lugar que Cuca Roseta reclama para este seu disco de canções partilhadas com o guitarrista Daniel Casares, este disco que é do fado tanto quanto do flamenco, que é da voz tanto quanto da guitarra, que é pioneiro numa tão aprofundada troca entre dois géneros que se confundem com a história dos respectivos países. Em Rayana, no entanto, fado e flamenco são duas linguagens em permanente sedução, cada uma a querer pertencer ao universo da outra, a querer redescobrir-se pelos olhos que a observam do outro lado da fronteira.

Este encontro da arte de Cuca Roseta com a música espanhola era, de certa forma, um casamento anunciado. Muito antes de se cruzar com Daniel Casares, Cuca apaixonara-se por Iberia, título do filme em que Carlos Saura cruzava a música andaluza com a música clássica espanhola, assim como o bailado clássico e o contemporâneo, e que há muito é uma das maiores referências para a fadista – a essas imagens regressa, muitas vezes, para nelas se inspirar e transportar semelhantes arrebatamento e paixão para os seus concertos. Foi pela mão do cineasta espanhol, lembremos, que Cuca Roseta deixou de ser um segredo bem guardado, em 2007. Até então era conhecida e admirada por aqueles que frequentavam o Clube de Fado e se perdiam já nos encantos da sua voz; passou a partir dessa altura a conquistar um público alargado, graças à sublime interpretação de “Novo Fado da Severa (Rua do Capelão)”, incluída no emblemático filme Fados, de Saura. Quis o destino, por vezes sinuoso nas suas voltas, que Cuca Roseta estivesse já prestes a lançar este Rayana quando, em Fevereiro de 2023, a inesperada morte do cineasta espanhol dotou este projecto de um simbolismo ainda maior. Se o encontro entre as expressões fundamentais das culturas portuguesa e espanhola estavam já no centro de Rayana, a homenagem ao homem que revelou Cuca Roseta ao mundo tornou-se não apenas um profundo e reconhecido agradecimento, mas uma inevitabilidade.

Tudo começou, no entanto, de forma acidental. Quis o destino, por vezes perspicaz nas suas voltas, que Cuca Roseta (uma da maiores e mais belas vozes do fado pós-Amália) e Daniel Casares (um dos mais notáveis guitarristas de flamenco e que tem actuado ao lado dos grande nomes do género mas também, por exemplo, da mezzo-soprano Cecilia Bartoli) coincidissem no cartaz de um mesmo festival. E sem que o soubessem ainda, assistiram ao concerto um do outro, ficando de tal formas encantados que levaram dessa noite a vontade de trabalharem juntos. Mas não o confessaram de imediato. Só que duas semanas depois da fadista se questionar como poderia chamar Casares para junto de si, quando nenhum dos seus projectos da altura fazia sentido como atalho para uma colaboração, foi Casares quem deu o primeiro passo, enviando uma mensagem que contava o quanto tinha ficado enamorado pela sua voz e partilhava o seu interesse em poderem trabalhar em algo de raiz. A partir daí, foi simples: Cuca Roseta trouxe o fado, Daniel Casares chegou com o flamenco, escolheram alguns temas dos cancioneiros dos dois lados da fronteira e tocaram juntos – oferecendo a história do género a que se dedicam, a sua história pessoal na relação com essa tradição e a história improvisada e intuitiva de como encaixam no universo do outro.

Para Cuca Roseta, naturalmente, o flamenco não era uma linguagem desconhecida ou distante. Não era nova a sua admiração por vozes como as de Estrella Morente, Diego el Cigala, Niña Pastori, Miguel Poveda ou Enrique Morente; menos ainda o seu fascínio por clássicos como Paco de Lucía e Camarón de la Isla. Emprestar a sua voz a temas do reportório do flamenco, essa sim, seria uma novidade. Facilitada pelo entendimento de que há nos dois géneros, flamenco e fado, uma expressão comum, uma forma espelhada de transformar em música sentimentos e emoções. A grande diferença, acredita Cuca Roseta, é que enquanto “o fado é uma melancolia mais contida, “o flamenco vira grito, bate o pé, abre o peito e refila com o destino”.

Encontrada essa admiração mútua e a abertura para serem contagiados pela linguagem do outro, Cuca Roseta e Daniel Casares começaram a pesquisar e a identificar o reportório que poderiam abordar em conjunto. Casares, sobretudo, enviou à fadista uma ampla selecção de canções espanholas que poderiam casar bem com a sua voz. Cuca Roseta seguiu, depois, os mesmos passos que adopta quando prepara um disco de fados: escutou os temas à procura daqueles que a emocionavam e leu atentamente as letras, percebendo que histórias eram aquelas e se podiam também ser as suas. Porque a emoção do seu canto sempre dependeu de acreditar com todas as forças em cada verso, sempre implicou que em cada letra descobrisse a sua vida e as suas experiências, sempre exigiu que ao cantar estivesse a cantar-se.

Nesta aproximação ao universo do flamenco, e ao mesmo tempo que homenageia os grandes autores e as grandes vozes de terras de Espanha, Cuca Roseta quis também regressar à sua referência maior – Amália Rodrigues. Se foi Amália a iluminar o seu caminho fadista, agora, levando a sua voz para lá da fronteira, a cantora quis pesquisar também todo o reportório em castelhado gravado por Amália (em álbuns como Sings Fado from Portugal, Flamenco from Spain). E foi nesse movimento que acabou por escolher três temas de enorme intensidade como “Si Si Si”, “Lé Ré Lé” e “La, La, La” (esta última uma canção de gigante popularidade em Espanha, mas poucas vezes reinterpretada). A herança amaliana que Cuca Roseta sempre carrega consigo surge ainda através das esplendorosas versões de “Estranha Forma de Vida” ou “Lágrima”, transformadas pela guitarra de Casares e escutadas como nunca antes as ouvimos graças às interpretações únicas e surpreendentes de Cuca Roseta. Porque essa é uma das mais belas lições de Rayana: não se trata aqui de simplesmente sobrepor fado e flamenco, mas sim deixar que os dois géneros se fundam e acabem por pintar novas paisagens.

À procura de um encontro entre os dois mundos, e sem preocupação de se alinhar com os mais tradicionais valores em qualquer um dos casos, somos convidados a embarcar numa viagem de descoberta do outro e de redescoberta do próprio. Foi essa experiência, sem quaisquer ensaios preparatórios, que Cuca Roseta e Daniel Casares, dois intérpretes de absoluta excelência, começaram a testar em concertos e a perceber o quanto esse encontro espontâneo deveria ser a regra durante as gravações. E assim aconteceu também com os dois temas inéditos, com composição de Casares e letras de Cuca, que os dois criaram e registaram num estúdio junto à praia, em Málaga, ao longo de três dias intensos que o registo não consegue disfarçar.

Rayana é a prova do quanto as fronteiras não passam de linhas imaginárias que se transpõem sem qualquer limitação. E do quanto o que realmente interessa ao visitar e encetar um diálogo com outra cultura é estar aberto a ser por ela transformado. Sem recear qualquer perda de identidade. Pelo contrário, em Rayana a identidade é um belo e emocionante universo em expansão.

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1º SINGLE

El Lerele
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2º SILGLE

Piedra la Paloma

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